Artigos do Padre

09/12/2015 - Artigos do Padre Haroldo - A Vida Observada

Às vezes nos sentimos mal, confusos, sem conseguir agir sozinhos, e então procuramos um psicólogo que possa resolver tudo. Mas o psicólogo nada pode fazer por você mesmo. Ele não pode conseguir aquilo que nós mesmos não estejamos dispostos a fazer. Pode nos ouvir e ajudar, para que nós mesmos esclareçamos tudo enquanto falamos. Na verdade, o que fazemos ali é observar a nós mesmos, e é isso que devemos fazer, mas de maneira contínua. A terapia, na maior parte dos casos, só representa uma troca de problemas: ela tira um, mas nos apresenta outro.

A espiritualidade é que tenta encontrar soluções para nós. Procura resolver o problema do “eu”, onde está a verdadeira origem dos problemas que nos levam ao psicólogo ou até ao psiquiatra. A espiritualidade vai diretamente à raiz de tudo, para resgatar o nosso “eu”, o autêntico, que está cercado por barreiras que não nos deixam existir livremente.

É contraproducente fazer esforço para mudar, pois o que vai nos transformar é a verdade: temos de observar a verdade para compreender que nossa programação não permite que sejamos nós mesmos. É a observação que vai nos mudar. “A vida não observada, não examinada, não vale a pena ser vivida, porque não é vida”, dizia Sócrates.

É preciso reconhecer todas as reações que surgem quando se olha para uma pessoa, para uma paisagem ou para si mesmo. É necessário observar como se costuma reagir diante de determinadas situações. Deve-se olhar com objetividade, como se fosse outra pessoa observando, tomando consciência do que acontece dentro e fora de si mesmo, com toda atenção (como ao dirigir um carro). Isso deve ser feito sem julgamento qualitativo, porque, se dermos rótulos às coisas, não veremos como elas são. É necessário entender as coisas, sem qualquer tipo de pré-julgamento.

Precisamos compreender que, com a palavra, ou com o pensamento, temos o costume de rotular as coisas e as pessoas, e depois, como consequência disso, passamos a viver o personagem do rótulo, e não a pessoa em si.

Se não mudamos espontaneamente, é porque resistimos a isso. No momento em que descobrimos os motivos da resistência, sem reprimi-la nem rejeitá-la, ela desaparecerá sozinha. Quando existe sensibilidade em nós, não é preciso violência para conseguirmos as coisas de que necessitamos, pois tudo é resolvido através do entendimento e da compreensão. E seremos até surpreendidos ao ver como as coisas se resolvem de acordo com a nossa compreensão da realidade, sem que tenhamos de lutar contra ela.

PARA REFLETIR
O rei Midas, segundo a mitologia grega, possuía um bastão mágico, cujo toque transformava tudo em ouro...
Como cristãos, temos um visível bastão “mágico”, que confere valor eterno aos mínimos atos do nosso dia-a-dia: a força do Oferecimento diário a Jesus.